Com carinho...

Estou fazendo este espaço, com toda minha simplicidade e vontade de aprender a ensinar melhor, para publicações relacionadas ao meu trabalho de professora alfabetizadora no Japão.
Espero que gostem e aceito sugestões...

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Vamos falar português?

As crianças brasileiras que vivem no Japão, estudam em escolas japonesas, têm uma facilidade natural de falar e pensar em japonês, mesmo quando não estão entre japoneses. É cada vez mais difícil, a gente pergunta em português e respondem em japonês. Então, como estão cada vez mais espertas, e não fazem nada de graça... Entramos para o mundo dos negócios, criamos o Banco de doces, na parede da sala há um gráfico, verde e vermelho, com uma tabela de pontos de 0 a 10, quanto mais português falarem mais pontos ganham. Como tudo na vida, é preciso cumprir certas regras:
_ Cada bolinha verde vale um ponto positivo na tabela de português, mas: 
        _ se não fizer os deveres de casa pode ganhar uma bolinha amarela de menos 3 ou menos 5 pontos
        _ mau comportamento também ganha uma bolinha vermelha de menos 5 ou menos 10 pontos
        _ quem ler um livro, pode ganhar uma bolinha branca de 5 pontos positivos
As bolinhas são depositadas em garrafas pet, com os nomes dos alunos, a troca acontecerá na Páscoa, no dia das Crianças e no Natal, os pontos serão somados e trocados por doces e chocolates. E acreditem, as crianças começaram a se cuidar, falam menos japonês e vivem comparando suas garrafas.

Lendo, cozinhando e aprendendo...

Os livros didáticos estão repletos de receitas culinárias, simples, apetitosas... Mas apenas ler e guardar para, quem sabe, um dia tentar fazer sozinho pode não ser tão gostoso quanto ler e fazer a receita durante a aula. Então, sempre fazemos alguma coisa na cozinha e comemos juntos mas a partir de agora estaremos fazendo todas receitas culinárias que aparecem nos livros. Além disso, hoje cada aluno ganhou um caderno capa dura, bonitinho, de presente, para montar seu caderninho de receitas. Assim eles estudam português e nem percebem...

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Beabá...

Estes são os cartazes do alfabeto silábico que fiz para minha sala de aula, Sazae, por exemplo, é uma personagem que as crianças brasileiras conhecem bem aqui no Japão. A gente tem que improvisar nas duas culturas para poder ensinar...

 

Casa de ferreiro, espeto de pau...

Este é um dos muitos ditos populares que usamos no Brasil, ensinamento que vem de nossos avós.
Acho que na família da minha mãe, as mulheres já nascem professoras, é todo mundo corrigindo todo mundo o tempo todo...
_ Senta direito... não senta de pernas abertas... feche a boca pra comer... mastigue em silêncio... cuidado com os dentes...
Bem,  nós aprendíamos a amar os dentinhos desde pequenos, eles poderiam voar caso falássemos alguma coisa que não podia... também tinha aquela coisa dos esses eerres , todos nos seus devidos lugares.
Ser corrigido o tempo todo é chato mas, pelo menos, a gente aprendeu certo e hoje erra porque quer ou por relaxo mesmo.
Depois de adulta a tortura continuou com os filhos, sobrinhos... e a gente até fomos no shopping com os Mamonas Assassinas, mas fora isso ...

_Tia, aonde a gente vamos hoje?
_ A gente não vamos a lugar nenhum. Nós vamos ou iremos ou a gente fica...

Hoje me lembrei de uma das Marias que trabalhou comigo, na cozinha do meu restaurante. Pessoa simples, alegre, trabalhadeira,  vivia me corrigindo, todo santo dia me torturava com marmitas e garfos. Era irritante. Talvez fosse irritante para ela também, talvez  não entedesse como eu: uma pessoa  com mais estudo que ela, professora e metida a escritora, podia falar tão errado daquele jeito... tem gente que aprende por repetição, tem gente que não aprende de jeito nenhum, devia ser o meu caso... Bastava prestar atenção no meu prório nome, então seria lógico: Silvia, galfo, malmita, caldalço...
E o pior é que ela frisava de propósito para me corrigir: _ Siiiiiiiiiiiiuvia, já passei aaaaaaucoou nos gaaaaaaaaaufos... Já lavei as maaaaumitas...
Talvez, também, se sentisse aliviada por eu não ser a prefessora dos filhos dela... Imagine, não sabia nem pra mim. Não dava conta de corrigir nem meus próprios filhos... Coitadinhos, todos falando errado. Filho de peixe...

E toda vez que vejo um garrrrrrrfo...
                                                                                                  Silvia Chaparral

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Pensamentos...

Alunos são como filhos.
Filhos que a gente pega emprestado por um tempo...
Filhos que a gente aprende a amar, tenta corrigir, educar da melhor maneira possível...
Filhos que de repente vão embora, não importa o motivo...
A separação é sempre triste, sempre fica uma saudade e
a sensação de que poderia ter feito melhor...

Alunos são como filhos.
Filhos que a gente educa para o mundo.
Filhos que vão embora.
Filhos que se despendem com um olhar triste ou
simplesmente desaparecem, sem dar nenhuma satisfação...

Alunos são como filhos.
Filhos que estão sempre por perto,
com um sorriso amigo ou
somem no mundo e quando te encontram:
fingem que não te conhecem...

Alunos são como filhos.
Filhos que  são gratos por toda a vida
ou que pensam que não te pediram nada e você 
não fez mais que sua obrigação...

Alunos são como filhos.
Criam asas e voam...
Uns voam mais alto, 
outros vão mais longe...

Profesores são como pais.
Mesmo abandonados, nunca esquecem seus filhos...
Alunos são como filhos:
muitas vezes se esquecem que os pais têm sentimentos...

Professores são como pais:
ficam felizes apenas em saber que seus filhos estão bem...
                                                                                                 Silvia Chaparral

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

_Me faz um onegai?... Dai joubu? Arigatou...

Aqui no Japão estamos falando e escrevendo um novo idioma, metade português, metade japonês... Entre adultos, tudo bem mas cada vez que falamos dessa maneira com uma criança estamos lhe tirando a oportunidade de se se expressar naquilo que deveria ser sua língua materna: a língua portuguesa do Brasil... Cada vez que fazemos uma pergunta em português e aceitamos a resposta em japonês, estamos deixando claro que a criança pode se comunicar dessa maneira, que não precisa falar português...
Especialistas estão sempre falando na importância da língua materna e blábláblá... resumindo: todos sabemos que a melhor maneira de se aprender um idioma é com professores nativos e então não adianta apenas pagar os melhores professores, escolas ou comprar cursos pela internet, etc., e continuar falando japonês dentro de casa. Os melhores professores do mundo são as pessoas da família: pais, mães, tios, avós... os outros ensinam a ler, escrever, interpretar textos, gramática, cultura do Brasil, História... mas não podem ensinar as crianças a amar um país que não conhecem. Eles tentam... As famílias precisam mostrar para seu filhos que o Brasil não é só aquilo que a tevê japonesa mostra: futebol, os índios e anacondas da Amazônia, as mulheres quase nuas do carnaval do Rio, as capivaras do Pantanal, cachoeiras de Foz do Iguaçu e claro: os roubos frequentes... E mostrar como? Conversando em português, contando suas histórias, comprando livros, gibis, filmes... As crianças que frequentam a escola japonesa, falam japonês normalmente, pensam em japonês e algumas até se acham japonesas pelo fato de terem nascido aqui...
As crianças que falam os dois idiomas têm muito mais facilidade de aprender, interpretam textos com mais facilidade, pensam rápido, enfim: transitam livremente entre os dois mundos...
Educar um filho na sua língua materna é valorizar as raízes, saber de onde veio e ter sempre a porta aberta para quando quiser ou precisar voltar. As vezes é lindo ver uma criança brasileira falando japonês tão bem, mas as vezes a própria mãe não entende o que ouve porque seu nível de japonês é insuficiente e ainda, há crianças que se envergonham da forma comos os pais falam... Basicamente,  temos duas opções: preservar a língua portuguesa dentro de casa ou estudar japonês...
Eu só queria lembrar que: os japoneses foram para o Brasil, fundaram vilas, clubes, associações, discriminaram e foram discriminados, etc., e apesar da fama de  que a terceira e quarta geração não estão nem aí, existem inúmeras associações japonesas, todas lutando pela preservação de seus costumes e cultura. Os japoneses do Brasil valorizam coisas que os daqui já até se esqueceram...  Mas e nós? Quantas associações de brasileiros temos no Japão? Em Toyama?  
Então, vamos fazer um onegai para nós mesmos: toda vez que, por descuido, costume ou necessidade, falarmos com as crianças, coisas do tipo:
_ Já fez o shukudai?  ou _ Lição de casa shita no?
Corrijamos em seguida:
_ Já fez a lição de casa?
Pode dar trabalho, mas o vocabulário do seu filho agradece. E as dificuldades ortográficas ficam menos difíceis...
Nós criamos os filhos para o mundo, mas pode ser um mundo que fale japonês... português... inglês...

                                                                                                     Silvia Chaparral